DE MASI, Domenico. O futuro do trabalho. v. 8, 1999.

28/07/2021

um homem de 20 anos se trabalhasse 8 horas por dia e vivesse 80 anos, viveria 525 mil horas e trabalharia 80 mil horas, gastaria 219 mil horas dormindo e com afazeres domésticos sendo todo o resto tempo livre, e ninguém se prepara para o ócio.p. 11 antigamente, quanto mais rica, menos a pessoa trabalhava, podendo dedicar-se a si, à família e aos amigos; hoje, entretanto, quanto mais rico, mais o homem trabalha, descuidando de si e dos outros. O trabalho passou de castigo a privilégio.p. 12 a organização social não consegue acompanhar o progresso tecnológico: as máquinas mudam muito mais velozmente do que os hábitos, as mentalidades e as normasp. 13 o comunismo demonstrou saber distribuir a riqueza mas não saber produzi-la; o capitalismo demonstrou saber produzi-la mas não distribuí-la.p. 13 As pessoas em busca de trabalho aumentam por uma dezena de bons motivos: cresce- cresce a população global do planeta;- aumentam as pessoas escolarizadas que querem ver frutificar o sacrifício investido no estudo;- continua o êxodo dos camponeses para as cidades;- também as massas assoladas do Terceiro Mundo querem trabalhar e, se não encontram trabalho em suas pátrias, vão procurá-lo no Primeiro Mundo;- as mulheres, no passado excluídas das ocupações remuneradas, também querem trabalhar;- querem trabalhar, também, muitos deficientes, com a ajuda de novas próteses;- querem trabalhar, ainda, os anciãos, uma vez que a vida se prolongou e os deixa com boa saúde até poucos meses antes de morrerp. 15 três problemas gerados pelo fato da riqueza depender cada vez menos do trabalho1 - como distribuir riqueza sem trabalho?riqueza era distribuída com base na produtividade, mas já não há essa correlação com a produtividade.2 - como reeducar milhões de pessoas para que não centralizem toda sua vida no trabalho?O que ele fará no tempo de trabalho será decidido por seus pais, por seus chefes, por ele próprio e pelo destino. Mas o que fará no tempo livre? Quem decidirá isso? Walt Disney, Hollywood, a CNN? O pároco? Murdoch? Fará coisas úteis ou inúteis? Vai se divertir ou se aborrecer? Será solidário, competitivo, agressivo, violento?p. 173- como reeducar milhões de pessoas do terceiro mundo para que apreendam a trabalhar (índia, china, África, bilhões de pessoas nunca trabalharam)Na Índia, na China, na África e na América Latina, bilhões de pessoas nunca trabalharam e nunca colocaram as suas exigências acima do limite de subsistência.p. 18 a riqueza, sobretudo se mal produzida e mal distribuída, em vez de criar sensação de bem-estar provoca a queixa e a queixa se traduz em antipatia dos ricos contra os pobres de todo o mundo,p. 18 Os séculos XIX e XX foram marcados pela guerra dos pobres contra os ricos. O século XXI, muito provavelmente, será marcado pela guerra dos ricos contra os pobres. Uma espécie de síndrome de Joanesburgo se difunde no mundo: os ricos têm cada vez mais medo dos pobres e se defendem deles atacando-os, reduzindo a ajuda humanitária que lhes prestam, piorando a qualidade da instrução, criando obstáculos ao fluxo migratório.p. 19 O caminho milenar do homem consiste na persistente vontade de libertar-se da atávica escravidão da miséria, da fadiga, da ignorância, da tradição, da autoridade, da dor, da feiúra e da morte.p. 19 do advento da agricultura ao da indústria decorreram oito mil anos; da sociedade industrial à pós-industrial passaram-se apenas dois séculos.p. 20 Os valores apreciados na sociedade industrial (padronização, eficiência, produtividade etc.) são muito diferentes e, em certos aspectos, opostos aos valores cada vez mais apreciados na sociedade pós-industrial (criatividade, subjetividade, emotividade, qualidade de vida etc.)8 acusações do sistema organizacional1. as organizações produtivas fabricam infelizes porque constrangem os seus dependentes a serem ) eficientes e competitivos a todo custo (leão e gazela devem correr para sobreviver)2. a tristeza estética das empresas - cimento e vidro, nuas e modulares como penitenciárias desenhadas para a vigilância e punição
3. a inútil extorsão de tempo com a prática da hora extra.
4. incapacidade de compensar os inconvenientes que a maioria dos trabalhadores experimentam.
5. a recusa de modificar os tempos de trabalho ( A duração e distribuição atuais do trabalho ao longo da semana são praticamente as mesmas inauguradas por Taylor no fim do século XIX)
6. estranheza e impotência que gera nos seus colaboradores (poucas foram criadas por nós mesmos e pouquíssimas funcionam como gostaríamos. (desleixo, ineficiência, desmotivação, desperdício) são mais frequentes nas empresas estresse, sobrecarga, competição, cinismo)
7. sadismo - medo, insegurança - a prosperidade não é uma garantia de trabalho
8. degeneração burocrática
o todo é muito mais do que a simples soma das partes
Em uma organização criativa cada um dá o máximo e o melhor de si; em uma organização burocratizada cada um dá o mínimo e o pior que temp. 39 O trabalho, para Marx, é atividade vital, isto é, a essência do homem. Vendendo-o, transformando-o em mercadoria, o trabalhador vende, comercializa, aliena a si mesmo. Por isso, "no seu trabalho ele não se afirma, mas se nega, não se sente satisfeito, mas infeliz, não desenvolve uma energia livre, física e espiritual, mas definha o seu corpo e destrói o espírito"

p. 44 Quase todos os trabalhos agradáveis são monopolizados pelas elites, os outros são delegados às máquinas ou aos animais ou são impostos aos escravos, aos forçados, aos estrangeiros, aos indigentes e, por último, às classes médias compostas de empregados, de funcionários e profissionais que se iludem de pertencer às classes dominantes mas que, de fato, representam uma nova forma de casta dominada

p. 45 todo trabalhador procura instintivamente a alegria no seu trabalho, mas que esse impulso é freqúentemente exacerbado, desviado e enfraquecido por obstáculos de organização